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  • Revolução Cubana no Le Monde Diplomatique: História e Imprensa Alternativa na América do Sul

Juliana Sayuri Ogassawara

Revolução Cubana no Le Monde Diplomatique: História e Imprensa Alternativa na América do Sul

Cinqüenta anos após a vitória da Revolução Cubana, a mídia internacional descortina distintas visões sobre os ecos da revolução e, principalmente, sobre o destino político de Cuba. A 1º de janeiro de 1959, os guerrilheiros castristas triunfavam na ilha caribenha. E a 1º de janeiro de 2009, a imprensa retorna às memórias revolucionárias, evidenciando antigas e novas perspectivas para a ilha...

 ... Partindo do viés da imprensa alternativa, busca-se delinear uma análise sobre as relações construídas entre história e imprensa no 50º aniversário da Revolução. Para tanto, esta análise se debruça sobre o caso do Le Monde Diplomatique, por se tratar de um jornal marcado pela cobertura politizada e dedicada principalmente à política internacional. A princípio, trata-se de uma publicação francesa, mas o jornal possui setenta e três edições internacionais. Para os fins deste estudo, foram selecionadas três de suas versões: as editadas no Brasil, no Chile e no Cone Sul, esta última destinada à Argentina e ao Uruguai. Assim, a análise se debruça sobre a América do Sul, buscando, todavia, retratar uma questão latino-americana, tendo em vista a história e o mito construído em torno da Revolução.

Palavras-chave: Le Monde Diplomatique; Revolução Cubana; História; Imprensa.

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Juliana Sayuri Ogassawara

Jornalista, Mestranda em História Social

Universidade de São Paulo

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« Revolução Cubana no Le Monde Diplomatique:

História e Imprensa Alternativa na América do Sul »

 

 

Introdução

           A história de Cuba está inextricavelmente relacionada à sua independência tardia e pelos solavancos de suas tentativas de independência. No passado colonial, Cuba foi invadida, conquistada e explorada por quase quatro séculos, principalmente sob domínio espanhol. Na ilha caribenha o açúcar era o principal atrativo à ambição mercantil da Espanha e posteriormente dos Estados Unidos.

A Guerra dos 10 Anos (1868-1878) foi a primeira luta independentista pela soberania cubana, com Carlos Manuel de Céspedes liderando proprietários de terras e escravos libertos contra colonizadores espanhóis(1). Uma tentativa malograda, visto que as tropas espanholas reconquistaram as rédeas da colônia em 1878. Todavia, inicia-se em 1895 uma nova guerra pela independência, liderada por José Martí, porém:

« A vitória das forças independentistas contudo não pôde concretizar-se, sendo frustrada pelos EUA, que intervieram com o pretexto de que um encouraçado da sua Marinha, o Maine, teria sido bombardeado no porto de Havana pelas tropas espanholas, situação que depois se revelou forjada pelo próprio governo norte-americano para viabilizar sua ação militar direta na guerra. Washington declarou ‘guerra à Espanha’, cujas tropas já estavam virtualmente derrotadas, restando somente a queda de Havana e de Santiago de Cuba para a derrocada final» (Sader 1985, 10).

Em 1898, a Espanha, vencida, retira-se de suas duas últimas colônias na América Latina: Cuba e Porto Rico, abrindo alas para o império de neo-colônias dos EUA. Em breve, já em 1901, com a Emenda Platt, Cuba ficaria até 1933 sob a tutela econômica e militar dos EUA, o principal importador do açúcar cubano.

« Consolidou-se assim o domínio norte-americano sobre a Ilha, reduzida a uma economia monocultora de exporação, onde o açúcar era complementado pelo tabaco, café e frutas tropicais, com um comércio de importação e exportação totalmente vinculado aos EUA. Politicamente o país passou a ser uma pseudo-república, complemento da neocolônia no plano econômico, tutelada pela presença ostensiva dos EUA » (Sader 1985, 11).

Considerando estas desbaratadas tentativas fracassadas de independência, o passado colonial e neocolonial tornou-se um legado cultural e político cubano. Legado que Cuba herdaria e revivaria a partir de 1952, com o golpe militar de Fulgencio Batista, que contou com aval do governo norte-americano.

« A espoliação inerente ao esbulho colonial continuou a imperar e a revolução nacional frustrada converteu-se numa herança política, transferida para o futuro. Fidel Castro identifica-se com essa herança ao retomar a tradição de Martí e sua ideologia revolucionária. Acabar com as ditaduras que apenas prolongavam, como versão militar e política modernizada, a tirania espanhola, e extinguir a satelização aos estados Unidos, que apenas era ma versão imperialista da dominação colonial, converteram-se nos dois pólos sine qua non da revolução nacional » (Fernandes 2007, 41).

Fidel inicia em 1953 o plano militar de ataque ao Quartel Moncada, em Santiago de Cuba, como ação revolucionária que seria batizada com a data do episódio: Movimento 26 de Julho. Liderados por Fidel, a investida desastrosa dos revolucionários foi um amargo fracasso. Descobertos na Sierra Maestra, muitos foram torturados e assassinados, Castro, porém, foi preso e feito réu nos tribunais. Ali, o advogado Fidel fez sua própria e histórica defesa, intitulada « A história me absolverá ».(2) E foi preso.

Em 1954, o ditador Batista inicia a « abertura democrática » em Cuba, com o fim da censura à imprensa. Em 1955, a campanha pela anistia total dos presos políticos sai, enfim, vitoriosa. Assim que liberto, Fidel parte para o México com seus companheiros. De 1956 a 1958, novamente em solo cubano, o exército rebelde castrista articulou sua mobilização gradativamente, concentrando-se tanto na direção urbana quanto na guerrilha tática rural e campesina, conquistando as principais cidades cubanas.

A alvorada do dia 1º de janeiro de 1959 trazia a notícia de que o ditador Fulgencio Batista fugira de Havana. Em brevíssimas linhas, esta é a narrativa da trajetória da Revolução Cubana. Para Emir Sader, há duas interpretações possíveis da Revolução. A tomada de poder por Fidel em oposição à ditadura de Batista é uma, como :

«[...] um movimento guerrilheiro que capitalizou o descontentamento do povo contra as condições de miséria, corrupção, falta de liberdade e dependência em relação aos EUA, para instalar um novo governo revolucionário nos primeiros dias de 1959» (Sader 1985, 5)

Por outro lado, a Revolução poderia ser interpretada como uma continuidade das « frustradas lutas de independência » iniciadas no século XIX, alavancando « transformações radicais das estruturas econômicas, sociais, políticas e ideológicas que fizeram de Cuba o primeiro país socialista da América Latina e do mundo ocidental »(3).

Para Florestan Fernandes, « a essência da revolução cubana não está em ter desatado o nó górdico do neocolonialismo e da dominação imperialista, mas na construção de um caminho socialista para o futuro »(4). Quanto ao caráter dual, no entanto, Fernandes considera que a revolução tinha como fim a liberação nacional e democrática, mas que também era:

« [...] em um nível mais profundo e por isso menos visível, uma revolução proletária e socialista. Desse ângulo, o « voluntarismo » dos revolucioná-rios – inegável no plano ideológico e do pensamento político – constituía uma resposta às exigencias e às potencialidades da situação histórica» (Fernandes 2007, 32).

Por diferentes perspectivas, portanto, é possível dizer que a Revolução Cubana ainda suscita relevantes questões, controvérsias, opiniões diversas, bem como discussões teóricas e ideológicas. Fato é que o tema aberto é « talvez o mais controvertido da segunda metade do século XX. As opiniões se dividem, mostrando que se trata de um fenômeno radical »(5).

Culminando no 50º aniversário da Revolução, a presente análise esquadrinha o discurso de três versões do Le Monde Diplomatique – editadas no Brasil, no Chile e a variante destinada a Argentina e ao Uruguai – sobre os ecos do movimento revolucionário, o momento presente e, principalmente, o destino político da Cuba socialista. Espera-se que a análise da imprensa revele novas discussões a respeito deste evento de grande repercussão internacional. Segundo Maria Helena Capelato, a imprensa pode ser vista como um instrumento para a reconstrução história:

«Manancial dos mais férteis para o conhecimento do passado, a imprensa possibilita ao historiador acompanhar o percurso dos homens através dos tempos. O periódico, antes considerado fonte suspeita e de pouca importância, já é reconhecido como material de pesquisa valioso para o estudo de uma época» (Capelato 1994, 13).

Portanto, a imprensa pode ser considerada mais do que uma fonte histórica, pois se trata de um espaço intelectual e politicamente efervescente, onde o desenrolar da história está sendo escrito, comentado e reescrito:

«A imprensa é um espaço no qual o escritor e o intelectual realizam intervenções exigidas pela realidade, fazem política, analisam a história, propõem políticas culturais e intervêm no debate ideológico e estético. Os acontecimentos políticos encontram-se intimamente relacionados com o desenvolvimento de um periódico, com suas tomadas de posição e até mesmo com sua duração» (Miskulin 2003, 25).

Por fim, vale dizer que « na América Latina, nos últimos 40 anos, não há figura política mais conhecida que Fidel Castro, nem acontecimento histórico mais controverso que a Revolução Cubana »(6). Pretendo, portanto, esmiuçar o discurso do Le Monde Diplomatique sobre este tema, cravado na história latino-americana e ainda passível de mais controvérsia.

 

I. Le Monde Diplomatique: um jornal plural

A. Alternativas na Imprensa

          A imprensa é alvo de ferozes críticas relativas às suas íntimas relações com a ideologia do poder dominante. Neste sentido, ela é tida, muitas vezes, como mais um braço da « indústria cultural »(7). Na indústria cultural, os bens culturais são forjados nos moldes das relações capitalistas, atendendo a padrões de mercado de espectadores/consumidores. Logo, esses bens atuariam como mais um tentáculo do capitalismo para a dominação social. Diante disso, os poderosos conglomerados midiáticos dilui os contornos do jornalismo comprometido com a verdade, aliciando-o a fim de que compactue ainda que silenciosa e discretamente com esta mesma indústria.

A imprensa é veementemente criticada por estar atrelada aos interesses do poder dominante, ditada pela ordem vetorizada principalmente no pilar econômico, atada aos ardis publicitários, às imposições rítmicas de produção jornalística serial e aos padronizantes manuais de redação e estilo, um quadro em que a « notícia é a informação transformada em mercadoria com todos os seus apelos estéticos, emocionais e sensacionais »(8). Logo, não é de se admirar que « no início do século XXI, é comum sublinhar o poder da mídia, quando não denunciá-la como prepotente, perversa e mesmo perigosa para o cidadão e a própria sociedade democrática ».(9). Mas enquanto as grandes mídias tendem a se alinhar a isso,

« Não haveria, então, espaço para publicações que questionassem o poder hegemônico e abrissem alternativas para a apresentação e difusão de outras idéias, visões de sociedade e de projetos para o país? Estaríamos condenados à perspectiva de voz e pensamento únicos? Como aceitar que, numa sociedade supostamente democrática, estejam sendo abordados e enterrados o debate e o conflito de idéias? Não há contradição? Não há pluralidade, miscigenação, mistura, culturas híbridas, encontros outros? Será que todos pensamos da mesma maneira? Só há mesmo um discurso possível e « viável »? Não há outros jornalismos, apenas o dos manuais de redação? » (Pereira Filho 2004, 24).

Uma resposta possível, nesse cenário trágico, seria a imprensa independente e alternativa, caracterizada pela amplitude na cobertura dos fatos e pelo jornalismo politizado(10), manifestando a busca por parte de jornalistas e intelectuais de espaços alternativos à grande imprensa(11). Dentre as publicações atuais, Le Monde Diplomatique se destaca por sua mobilização e suas agudas críticas às novas implicações sócio-culturais e políticas na realidade imbricada pelo neoliberalismo, sustentando uma posição anti-neoliberal e antiimperialista. Le Monde Diplomatique quer oferecer um viés diferenciado acerca de temas em pauta na política internacional. Neste artigo, busco analisar o discurso deste jornal em seu dossiê sobre a Revolução Cubana.

Especialmente quanto à revolução, convém frisar que :

« A mídia hegemônica realiza o « obituário precoce » do líder revolucionário – num ritual macabro em que reza por sua morte – e especula sobre a regressão capitalista na ilha rebelde. Essa ladainha ideologizada, em que a informação imparcial pouco vale, é antiga. Satélite dos EUA, a mídia mundial sempre apostou no fracasso da Revolução Cubana» (Borges 2008).

Se no presente a saúde abalada de Fidel Castro atrai os holofotes da mídia nesse sentido, vale dizer que no passado,

« A Revolução Cubana foi fartamente noticiada e discutida, criticada pela imprensa nacional, amplamente debatida pelo movimento estudantil; citada, aplaudida e copiada pelos militantes dos movimentos de esquerda e rechaçada pela direita » (Wasserman 2007).

B. Breve história do Le Monde Diplomatique

Desde sua gênese na França de 1954, o Le Monde Diplomatique declaradamente quer se posicionar como uma alternativa editorial politizada, diante da grande mídia mundial, pretendendo expor questões geopolíticas, sociais e culturais do mundo sob um « novo olhar », sendo valorizado como « a melhor publicação de política internacional do mundo » (12). Publicado na Europa, América, Ásia e África, conta atualmente com setenta e três edições internacionais em vinte e seis idiomas. As edições são independentes, porém sua espinha dorsal são as diretrizes editoriais do Le Monde Diplomatique francês. A proposta editorial fica clara ao dizer que Le Monde Diplomatique « constitui, finalmente, uma porta aberta ao novo. Novos comportamentos, novas formas de intervenção cultural, novas proposições artísticas. Queremos ser os olhos e os ouvidos deste tempo. E também os seus protagonistas » (13).

Além da proposta, na sua trajetória destaca-se sua articulação politizada com movimentos sócio-culturais, como sua proposta de mobilização internacional contra a tirania de mercados, em um editorial que se tornaria o movimento ATTAC - Association pour la Taxe Tobin pour l'Aide aux Citoyens - e sua participação ao lado de movimentos do Brasil e do mundo na elaboração do que viria a ser o Fórum Social Mundial(14). Assim, o Le Monde Diplomatique posiciona-se claramente como uma mídia articulada com o viés alternativo da política e da economia, em prol das transformações da sociedade, acreditando que :

« Num mundo em que se proclama a inexistência de alternativas – e se procura, portanto, reduzir dos cidadãos a espectadores da História –, nada mais transformador que valorizar e construir, na prática, o direito à informação, à comunicação, ao exercício de enxergar o mundo e influir em seus destinos » (Le Monde Diplomatique 2007).

Para Sader, o Le Monde Diplomatique « se situa inequivocamente na onda da construção do mundo alternativo » :

«Não por acaso, o editorial de Ignácio Ramonet denunciando o pensamento único – publicado há dez anos – e convocando à construção de um pensamento crítico e alternativo, faz parte da história da luta anti-neoliberal. Não por acaso, Bernard Cassen foi o grande idealizador do projeto do Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Não por acaso, o Diplô conta atualmente com dezenas de edições nacionais pelo mundo afora, que somam várias centenas de milhares de exemplares, incluindo edições na Argentina e no Chile, às quais se soma agora a do Brasil » (Sader 2007).

 

C. A presença de Le Monde Diplomatique na América do Sul

Para compor o corpus desta análise, foram elencados três artigos: « Cuba busca renovar su modelo » (15)de Janette Habel, do Instituto de Altos Estudios de América Latina de Paris, traduzido tanto para a edição chilena quanto para a do Cone Sul (16); « Revolução Cubana : 50 anos de resistência e dignidade » (17), por Tiago Nery, mestre pelo Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro; e « Sair do caos sem cair na lei da selva » (18), por Aurelio Alonso, sociólogo e ensaísta cubano, subdiretor da revista Casa de las Américas – estes últimos artigos veiculados na versão da gazeta no Brasil.

Apesar de se repetir, o artigo de Habel apresenta pequenas peculiaridades nas suas duas versões, como as fotografias e capas. A capa da edição do Chile destaca apenas: « A 50 años da Revolución : Cuba busca su camino ». O destaque na capa do Cone Sul é maior :

 

« Cuba 50 años después: con legítimo orgullo, pero exhausta y en proceso de cambio, la Réevolución cumple medio siglo. Símbolo de los tiempos, 46 años después de haber sido expulsada de la Organización de Estados Americanos por exigencia de los Estados Unidos, ha vuelto a la comunidad regional de naciones por la puerta del Grupo del Río, en un contexto de diversos proyectos de unidad latinoamericana que excluyen a la potencia del Norte » (Le Monde Diplomatique 2009)(19)

O artigo de Habel é marcado pela pluralidade de vozes. Para tecer sua análise sobre os impasses de Cuba, a autora usou citações de fontes como o sociólogo Aurelio Alonso, o economista Pedro Montreal, a socióloga cubana Mayra Espina, o pesquisador Ariel Dacar, o politólogo Juan Valdés Paz, o ex-diplomático Pedro Campos, o diretor da revista Temas Rafael Hernández, a historiadora norte-americana Michelle Chase, o diretor da revista Criterios Desiderio Navarro, o ex-primeiro ministro polaco Tadeusz Mazowiecki e a revista teórica e política do Comitê Central do Partido Comunista Cubano. A autora costura as idéias e posições diferentes das fontes, incitando a discussão acerca do tema.

Marcante também é a presença de interrogações ao longo do artigo. Habel questiona: « ¿De qué se discute? ¿En qué consisten las diferencias? Militantes, investigadores, intelectuales y algunos círculos estudiantiles están en busca de un socialismo alternativo. […] Hay que cambiar. Pero ¿qué, cuándo y cómo? […] »(20). Questões vibrantes, considerando que o artigo não trata apenas da Revolução – aliás, tem-na tão-só como cenário – mas enfoca a questão da renúncia de Fidel em fevereiro de 2008, passando o poder para seu irmão, Raúl Castro. « El escenario político es inédito ».

O artigo de Nery também mostra diversidade de vozes, contando com citações do historiador Luis Fernando Ayerbe, do crítico literário Antonio Candido e do antropólogo Darcy Ribeiro – além da voz de Fidel Castro por « A história me absolverá ». Seu texto, porém, é mais narrativo, superficialmente recordando episódios de 1959. O artigo de Alonso, por fim, oferece um texto mais analítico e crítico, com um tom mais ensaístico debruçado principalmente sobre a questão do futuro cubano sem Fidel.

 

II. A encruzilhada de Cuba entre passado, presente e futuro

A. O destino da ilha

« Dilema » é a palavra para caracterizar a incerteza do destino. As primeiras linhas de Habel são aspas de Alonso: « Salir del caos sin caer bajo el yugo de la ley de la selva » (21). Nas palavras de Alonso, a lei da selva « é a política do pluripartidarismo eleitoral associada às pressões do capital, ideologia do individualismo, exaltação da competição e da desigualdade e insensibilização perante a pobreza » (22).

Para Alonso, esta é a segunda vez em que é forçoso repensar a transição. Na primeira, no início dos anos 1970, « ficou evidente que o poderio norte-americano tinha condições de arruinar um vizinho tão frágil, apenas privando-o de cenário de inserção »(23). A nova transição, contudo, tem outro caráter : o dilema. Para ele, há duas vias : a « duríssima rota » para preservar o socialismo, ainda que « sem cenários de inserção alternativos », ou a renúncia à proposta socialista e o início da transição inversa, para o capitalismo. « O dilema definia-se, portanto, entre a transição de um socialismo fracassado para um socialismo viável ou para um capitalismo que amavelmente nos era apresentado como realizável, com « rosto humano » ».(24). Segundo Alonso, em Cuba prevaleceria a primeira alternativa.

« A outra transição teria sido mais simples, ao colocar tudo nas mãos do mercado. E é também terrível, já que sua lógica não perdoa: consolida desigualdades, aprofunda e aumenta a pobreza, penhora soberanias, compromete futuros. Teríamos perdido meio século de sacrifícios em Cuba » (Alonso 2008, 16).

Para Habel, o momento é marcado por « la emergencia de un importante debate sobre el futuro del socialismo, tanto en la oposición como en aquellos que desean su evolución ».(25) Assim como a dualidade presente entre avanço e recuo, o « dilema » busca traduzir a transição para o pós-castrismo em que oscila Cuba, como nas palavras de Nery: « equilibrando-se entre o realismo e a utopia »(26). « Fidelistas » e « raulistas » são expressões que vêm à tona como polaridades entre « passado » e « futuro », respectivamente.

Assim como Habel, Alonso aponta debilidades nos campos da economia e da política cubanas. Nas atonias econômicas « centradas na confusão de socialização com estatização » (27), há ainda fatores circunstanciais como a alta dos preços de matérias-primas agrícolas e a crise financeira mundial, e estruturais, a forte dependência das importações(28). Na política, a principal crítica recai sobre a ausência de democracia participativa, o « verdadeiro poder popular »(29), pois « aunque ninguno de los dirigentes propone cambios políticos, bajo la influencia de la izquierda latinoamericana se hace sentir la aspiración a una democracia participativa » (30) e a falta de liberdades individuais.

Na transição, a mudança é imperativa: « É óbvio que a realidade presente mostra uma complexa parafernália de necessidades de mudança na transição cubana »(31). E Raúl simboliza a esperança nova, por admitir que é preciso promover mudanças estruturais na ilha(32). Enquanto Alonso e Habel admitem a necessidade de mudanças, Nery se contenta em dizer que além dos avanços, Cuba apresente contradições, como o partido único, o monopólio da imprensa estatal e as restrições às liberdades, evidenciando sua posição :

« No entanto, entre as principais fragilidades das críticas endereçadas a Cuba, ressalta-se a ausência de perspectiva histórica, que ignora os contextos e os desafios que influenciaram as escolhas dos dirigentes cubanos, sempre condicionados pela ação dos sucessivos governos norte-americanos » (Nery 2009).

Alinhado a Nery nesse ponto, Sader diz que : « O argumento utilizado por órgãos de imprensa é de que o preço dessas conquistas inegáveis foi a perda da liberdade e da democracia pelo povo cubano »(33), questionando, todavia, os conceitos de democracia e liberdade. Assim, poderíamos dizer que o dilema polariza: conquista x mudança; passado x futuro; Fidel x Raúl; socialismo x capitalismo.

« A importância de Cuba como marco da primeira revolução que se tornou socialista na América Latina, no contexto internacional pós Segunda Guerra Mundial, marcado pelo acirramento da Guerra Fria, suscitou e suscita interpretações diferenciadas e marcadas pela defesa incondicional da Revolução e do castrismo ou de interpretações críticas à Revolução. Entretanto, há uma visão crítica de esquerda que reconhece as conquistas sociais da Revolução e seus esforços para a construção do socialismo, mas assume uma posição crítica em relação à falta das liberdades democráticas (políticas e culturais) em Cuba e à sua extrema dependência do bloco liderado pela ex-União Soviética, durante um longo período » (Miskulin 2003, 26).

Porém, tais intelectuais de « visão crítica » são ofuscados pelo fulgor memorialístico da Revolução. Para Farber, na edição boliviana do Le Monde Diplomatique:

« Para uma grande parte da esquerda latino-americana, o governo cubano tem representado uma força anti-imperialista e um baluarte dos movimentos progressistas. Mas um exame aprofundado da política externa cubana revela que, embora Cuba tenha seguido uma trajetória de oposição ao imperialismo dos EUA, não aconteceu o mesmo com relação à agressão imperial de outros países » (Farber 2009).

No caso de Le Monde Diplomatique, vemos essas duas tendências : Alonso e Habel tecem análises críticas à estrutura debilitada da atual Cuba, em relação à economia, política e liberdades individuais; ao passo que Nery entoa um discurso nitidamente mais aderente aos princípios da Revolução, reduzindo sua ótica a uma lógica que deliberadamente desconsidera as críticas mais ferrenhas, principalmente destinadas à política externa cubana.

 

C. O veneno da história

« História » é uma palavra presente nas construções discursivas de Le Monde Diplomatique. A renúncia de Fidel é tida como o final de um ciclo histórico(34). Fato é que :

« As grandes revoluções criam os seus mitos. E eles, por sua vez, definem sua realidade histórica e seu impacto utópico. A revolução cubana não escapou a essa regra. Nem poderia. Os mitos eram demasiado importantes para ela, como fatores de compensação psicológica e política ou em face de exigências da situação histórica» (Fernandes 2007, 210).

Para Fernandes, a revolução simboliza « que a América Latina tem uma alternativa histórica ». Assim, para Sader, « à revolução cubana se deve o mérito de ter provado que é possível eliminar os traços mais marcantes do subdesenvolvimento, mediante a transformação radical das estruturas vigentes na sociedade »(35).

No Le Monde, Nery considera que erradicados os males sociais, é possível construir uma sociedade « mais justa ». Nery foi o único autor a revisitar o passado cubano, ao dizer que « a revolução de 1959 tem profundas raízes na trajetória histórica nacional, cujos antecedentes remontam ao período da luta pela independência »(36), e ao citar fragmentos de « A história me absolverá » de Fidel.

« A história me absolverá » contém o gérmen de Paul Valéry em sua célebre frase : « A história é o produto mais perigoso que a química do intelecto elaborou. A história justifica o que quiser »(37). Quanto ao presente, autores como Alonso apelam à ela também : « De quais virtudes de Fidel como estadista carecerá Raúl e vice-versa é uma especulação que somente a história deste difícil período que lhe cabe poderá dar conta »(38). E Habel finaliza com a questão aberta: « Hay quienes piensan que se necesitan nuevos actores para que las transformaciones sean creíbles. Entre aquellos para quienes los días están contados y aquellos para quienes el tiempo apremia, la historia todavía no ha dado su veredicto »(39).

 

Ainda na encruzilhada: perspectivas plurais sobre o futuro de Cuba

          Os pólos do dilema da transição cubana podem escalonar os três artigos : Habel tece múltiplas questões sobre o futuro de Cuba, o artigo é mais inquisitivo, e ao mesmo tempo mais aberto e plural. Nery, por sua vez, é autor do artigo mais passional, mais comprometido com o louvor revolucionário, com a trama de uma Cuba socialista, isto é, com o passado. Alonso estaria entre os dois, oferecendo o artigo mais crítico, ponderado e sensato, mais focado nos dramas do presente.

Com isso, presumo que a pluralidade é a principal consideração a ser feita sobre estes artigos. O Le Monde Diplomatique proporciona ao leitor três vieses distintos, e, mais importante, três perspectivas abertas sobre a questão, fazendo jus a uma das marcas da imprensa alternativa: um espaço para discussões de idéias plurais.

Pluralidade que permite ao jornal apresentar três análises críticas orientadas por diferentes tendências. Apesar de corresponderem a edições de diferentes países – Brasil, Chile, Argentina e Uruguai – os três artigos estão sob a égide da linha editorial de Le Monde Diplomatique, oferecendo « um outro olhar » sobre o mundo. Do elogio (caso de Nery) à crítica (Habel), perpassando a ponderação (Alonso), Le Monde Diplomatique explora os vértices da Revolução Cubana no contexto de seu cinqüentenário evidenciando que o dilema deve ser visto sob um prisma plural, de alternativas dentro de alternativas.

 

Notas de rodapé

(1) SADER, Emir, A revolução cubana, São Paulo : Editora Moderna, 1985, pp. 8-9.

(2) Ibid., p. 22.

(3) Ibid., p. 5.

(4)FERNANDES, Florestan, Da guerrilha ao socialismo: A Revolução Cubana. São Paulo : Editora Expressão Popular, 2007, p. 89.

(5) SADER, E. (1985), op. cit., p. 74.

(6) PRADO, María Lígia Coelho. « Prefácio » in. MISKULIN, Sílvia Cezar., Cultura ilhada : Imprensa e revolução cubana (1959-1961), São Paulo : Xamã, 2003, p. 11.

(7) Cf. ADORNO, Theodor. « A indústria cultural », in. COHN, Gabriel. Comunicação e Indústria Cultural, São Paulo : Companhia Editora Nacional, 1971, pp. 287-8.

(8) MARCONDES FILHO, Ciro, O capital da notícia, São Paulo : Ática, 1986, p. 13.

(9) TRAQUINA, Nelson, O estudo do jornalismo no século XX.,São Leopoldo : Unisinos, 2003, p. 13.

(10) AQUINO, Maria Aparecida de, Censura, Imprensa e Estado Autoritário: 1968-1978, Bauru : EDUSC, 1999, p. 23.

(11) KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e Revolucionários : Nos tempos da Imprensa Alternativa, São Paulo : Scritta Editorial, 1991, p. XVI.

(12) SADER, Emir. « Le Monde Diplomatique no Brasil », in. Carta Maior, 10/8/2007.
[URL : Disponível: http://cartamaior.com.br/. Acesso: 7/8/2008 ]

(13) ARANTES, José Tadeu. « Um novo olhar ». In. Le Monde Diplomatique, São Paulo : Instituto Pólis, ano 1, n. 1, 8/2007, p. 3.

(14) O Fórum se pretende um espaço de debate democrático de idéias, reflexão, propostas, experiências e articulação de movimentos sociais, redes e outras organizações da sociedade civil, opostas ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo. Cf. Carta de Princípios.
[URL :
http://forumsocialmundial.org.br/. Último acesso: 21/2/2009 ]

(15) HABEL, Janette. « Cuba busca renovar su modelo ». In. Le Monde Diplomatique. Santiago do Chile : Editorial Aún Creemos en los Sueños, ano 9, n. 93, 1/2009, pp. 4-5.

(16) Esta edição é apresentada como Edición Cono Sur, distribuída na Argentina e no Uruguai. Além destas versões impressas, este artigo está traduzido nas edições eletrônicas do México e da Venezuela.

(17) NERY, Tiago. « Revolução Cubana: 50 anos de resistência e dignidade », in. Le Monde Diplomatique, 1/2009. [URL : http://diplo.uol.com.br/2009-01,a2755. Acesso: 23/2/2009 .]

(18) ALONSO, Aurelio. « Sair do caos sem cair na lei da selva », in. Le Monde Diplomatique, São Paulo: Instituto Pólis, ano 1, n. 12, 7/2008, p. 16-7.

(19) Le Monde Diplomatique. Buenos Aires: Capital Intelectual SA, ano 10, n. 115, janeiro de 2009. Tradução da autora: « Cuba 50 anos depois: Com legítimo orgulho, mas exausta e em processo de mudança, a Revolução completa meia século. Símbolo dos tempos, 46 anos depois de ter sido expulsa da Organização de Estados Americanos por exigência dos Estados Unidos, voltou à comunidade regional de nações pela porta do Grupo do Rio, em um contexto de diversos projetos de unidade latino-americana que excluem a potência do Norte ».

(20) HABEL (2009), op. cit., pp. 4-5. Tradução da autora: « De que se discute? Em que consistem as diferenças? Militantes, pesquisadores, intelectuais e alguns círculos estudantis estão em busca de um socialismo alternativo [...] É preciso mudar. Mas, o quê?, quando? e como? [...] »

(21)Id. Tradução da autora: « Sair do caos sem cair na lei da selva »

(22) ALONSO (2008), op. cit. pp. 16-7.

(23) Ibid., p. 16.

(24) Id.

(25) Tradução da autora: « A emergência de um importante debate sobre o futuro do socialismo, tanto na oposição quanto entre aqueles que desejam sua evolução ».

(26) NERY, 2009.

(27) ALONSO (2008), op. cit.,pp. 16-7.

(28) HABEL (2009), op. cit., p. 4.

(29) ALONSO (2008), op. cit. pp. 16-7.

(30) HABEL (2009), op. cit. Tradução da autora: « Ainda que nenhum dos dirigentes proponha mudanças políticas, sob a influência da esquerda latino-americana se faz sentir a aspiração à uma democracia participativa ».

(31) ALONSO (2008), op. cit.,p. 16.

(32) HABEL (2009), op. cit., pp. 4-5.

(33) SADER (1985), op. cit., p. 76.

(34) HABEL (2009), op. cit.,pp. 4-5.

(35) SADER (1985),op. cit., p. 75.

(36) NERY (2009)

(37) VALERYapud LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas : Editora Unicamp, 2003, p. 32.

(38) ALONSO (2008)

(39) HABEL (2009). Tradução da autora: « Há quem pense que é preciso novos atores para que as transformações sejam críveis. Entre aqueles para quem os dias estão contados e aqueles a quem o tempo premia, a história ainda não deu seu veredicto ».


Referências bibliográficas

 

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Pour citer cet article:

Sayuri Ogassawara Juliana,  « Revolução Cubana no Le Monde Diplomatique: História e Imprensa Alternativa na América do Sul. », RITA, N°2 : août 2009, (en ligne), Mis en ligne le 01 août 2009. Disponible en ligne http://www.revue-rita.com/regards-champlibre-3784/revolu-cubana-champlibre-10490.html

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