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Brasília: marcas identitárias sobre a cidade, marcas urbanas sobre a identidade

Este trabalho analisa de que maneira a configuração do espaço urbano marca a construção da identidade de um grupo. Para tanto, observa-se alguns dos traços significativos dos habitantes do Plano Piloto de Brasília, capital do Brasil. Ao percorrer os caminhos da formação nacional, traçamos um paralelo entre a miscigenação que originou o povo brasileiro e o mosaico cultural visível na constituição da cultura brasiliense...

... Nosso percurso teórico é formado pela noção de modernidade líquida (BAUMAN) para demonstrar como a formação das identidades na contemporaneidade não depende de fatores rígidos. Na linha do pensamento de Hobsbawm, questionamos o fator tempo como determinante para se construir uma tradição. Fundada em 1960, a capital federal é representada no imaginário popular como antro do poder, uma ilha da fantasia, cidade desinteressante e fria, lugar sem distinção identitária. A despeito desses clichês, encontramos evidências de que as pessoas que atribuem esses adjetivos desconhecem a vida cotidiana no Planalto Central. Assim, Brasília parece sofrer do mesmo complexo nacional: uma totalidade, formada de junções e conjunções sincréticas. A afirmação de que Brasília não possui identidade definida, usualmente, tem sua argumentação fundamentada no fator tempo (48 anos) consideravelmente curto em relação a outras localidades importantes do país. A impressão de que as coisas antigas já estão prontas desconsidera que toda tradição foi, um dia, “inventada”.

 

Palavras-chave / Mots-clefs: Identidade; Brasília; Cultura; Modernidade; Urbanização.

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Patrícia Cabral de Arruda

Graduada em Ciências Socias, Mestre em Sociologia

Doutoranda em Sociologia na Universidade de Brasília - UnB

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Brasília: marcas identitárias sobre a cidade,
marcas urbanas sobre a identidade

 

"Como será quem nasce em Brasília quando crescer e virar homem? Porque a cidade é habitada por forasteiros nostálgicos. Os exilados. Os que nascem lá serão o futuro. Futuro faiscante como o aço. Se eu ainda estiver viva, aplaudirei o produto estranho e altamente novo que surgirá..."[1]

 

"Os seres da capital são sustentados por fios/ no Redemunho eles se divertem, poeirais/ brasílias se embaraçam troianas e particulares/ e brincam de fazer redimunhos adágios e pipas/ girantes são os fios de Brasília:/ os seres insustentáveis e leves/ são os filhos gigantes de Brasília/ ― o centro dessa cidade é dentro do Redemunho."[2]

 

 

         A cidade de Brasília, capital do Brasil, situada no Planalto Central, localiza-se na região Centro-Oeste do país (Figura 1). É uma das capitais planejadas cujo projeto urbanístico, de Lucio Costa, é muito conhecido e estudado, especialmente por profissionais da arquitetura. Foi construída para ser a nova sede do poder político brasileiro na década de 1960 que seria transferido do Rio de Janeiro e atendia a um projeto de ocupar o interior do país. Passados quase 50 anos de sua construção e inauguração, encontramos indícios de que a imagem de cidade planejada, com vias amplas e prédios monumentais, construídos para abrigar a burocracia estatal no coração do Brasil é umas das pouquíssimas referências que habitam o imaginário popular sobre o local.

 

 

Figura 1: Mapa politico do Brasil

 
fonte: Instituo Brasileiro de geografia e Estatistica - IBGE

 

Em observações assistemáticas, fora do Distrito Federal (DF), podemos perceber que sempre que se menciona a palavra Brasília, as pessoas pensam em política (e, inevitavelmente, em corrupção), em servidores públicos, burocratas e construções colossais sem árvores e com milhares de carros. Em nenhum momento aludem-se aos demais elementos que eventualmente possam remeter aos seres comuns que vivem em qualquer metrópole.

Nascida de um projeto político populista, espelho de modernidade, com arquitetura arrojada e futurista e setores habitacionais bem definidos, a região é representada das mais diversas formas: antro do poder, ilha da fantasia, local de gente ociosa – servidores públicos – ou lugar frio e sem identidade. A despeito desses clichês, normalmente, as pessoas que atribuem esses adjetivos, desconhecem os hábitos e a rotina no Planalto Central. Por outro lado, a confusão Distrito Federal/Brasília, cidade-satélite/bairro, Plano Piloto/cidade-satélite, ocorre entre os próprios habitantes, meios de comunicação e órgãos responsáveis pela administração.

O objetivo deste trabalho é refletir sobre as características identitárias dos habitantes do Plano Piloto de Brasília, capital do Brasil. Para tanto, o artigo está estruturado em três partes: a primeira trata de uma abordagem histórico-conceitual do problema da identidade nas ciências sociais; em seguida, percorre-se os caminhos da formação nacional para contextualizar o surgimento de Brasília e aproximar a formação cultural da cidade e a do País; finalmente, na última parte, busca-se pontos convergentes e divergentes entre Brasília e Brasil, a fim de analisar em que medida a nação se reflete em sua capital e vice-versa. Não se trata de um trabalho conclusivo, pois a pesquisa ainda está em andamento e a coleta dos dados em campo ainda não foi finalizada. Trata-se de um exercício de reflexão acadêmica e de uma tentativa de agregar consistência teórica às observações empíricas já realizadas.

A idéia a ser sustentada é a de que embora seja precipitado afirmar a existência de uma identidade definida (afinal não existe aquela que esteja pronta e acabada), podemos perceber algumas características e ocorrências típicas na localidade. Ao mesmo tempo, sustenta-se que a principal característica da Capital Federal é exatamente ser um mosaico cultural, ou seja, ela amalgamar uma miríade de traços de diversos lugares do país e do mundo, sem que nenhum deles se sobressaia. Ao contrário, eles se misturam e dão origem a algo novo, que chamamos de ethos brasiliense (modus vivendi). Entre esses traços percebe-se a alta qualidade de vida, marcas de civilidade, alta escolaridade e poder aquisitivo, consumo cultural constante, baixos índices de criminalidade no Plano Piloto, em contraposição a uma segurança pública problemática nas cidades satélites.

Assim, é possível perceber indícios de traços identitários definidores de uma maneira de ser, típica dos moradores, mesmo com a dificuldade de encontrá-los explícitos. Nesse caso, o presente artigo faz parte de um projeto intelectual de buscar respostas para essa questão sutil e atual, que é apenas parte da discussão que desenvolvemos em pesquisa para Tese de Doutoramento.

 

I. Tradição, Modernidade e Identidade: algumas reflexões

         A identidade é um tema discutido em diversas áreas do conhecimento. Trata-se de um conceito movediço, cuja chave para compreensão a sociologia busca na vertente cultural. Considerando que esta é uma questão emblemática, a perspectiva adotada congregará cultura e pensamento social para analisar a constituição dos seus elementos e sua especificidade em Brasília.

Para Renato Ortiz[3] a identidade é uma construção simbólica e se define pela diferença, como algo exterior. Para Hobsbawm (2006), ela está ligada à invenção das tradições. Bauman (2005) a define pela fluidez, ou seja, o que antes lhe dava sustentação (nação, gênero, família etc.), hoje tem um caráter líquido.

Derivada do latim idem, que significa ‘o mesmo’, a palavra já foi utilizada em diversas áreas do conhecimento, sentidos e contextos. No entanto, é no campo das Ciências Sociais que o vocábulo se torna um complexo conceito que, em linhas gerais, pretende se referir ao

"[...] processo pelo qual um ator social se reconhece e constrói significado principalmente com base em determinado atributo cultural ou conjunto de atributos, a ponto de excluir uma referência mais ampla a outras estruturas sociais"[4].

Embora perceptíveis na realidade, tanto o conceito, quanto a noção, são de difícil apreensão. A esse respeito Berger e Luckmann afirmam que

"[...] os tipos de identidade podem ser observados na vida cotidiana e [...] as afirmações [...] podem ser verificadas – ou refutadas – por homens comuns dotados de bom-senso. O americano que duvida de que os franceses são diferentes pode ir à França verificar por si mesmo. Evidentemente, a condição dessas tipificações não é comparável à das construções das ciências sociais, nem a verificação ou a refutação seguem os cânones do método científico [...]. O ponto interessante [...] é que os tipos de identidade são “observáveis”, “verificáveis” na experiência pré-teórica, e por conseguinte pré-científica"[5].

 

Apesar do caráter volátil, abordar essa discussão pelo prisma da cultura possibilita uma plataforma de visão ampla, principalmente porque os conceitos estão intimamente ligados. Se por um lado, o ser humano é inevitavelmente moldado pelo contexto sócio-cultural em que nasce, por outro, deve-se considerar como esse molde recebe constantemente respostas subjetivas. Assim, a identidade funcionaria como uma interface entre o indivíduo e a sociedade. A auto-identificação seria um exemplo disso. Marcada pela diferença, ela só faz sentido em relação a outrem. Isso acontece porque cada um sabe exatamente quem ele não é – e reconhece o diferente. Da mesma forma, ao admitir essa desigualdade, utilizam-se instrumentos para perceber no grupo o seu igual. Assim, a identificação é o que completa o sentimento de pertencimento de um sujeito em relação a outro e de um determinado grupo em relação aos demais.

A palavra identidade pode ser encontrada desde a Antiguidade e teve uma força ambivalente na chamada Idade Média. Mas foi a partir do século XVI, após a descoberta da América, que ela surgiu como tema de profundas reflexões. Diante do choque provocado pelo encontro com povos tão diferentes, o debate sobre a alteridade foi definitivamente levantado. Ao se deparar com o outro (radicalmente diverso) o europeu teve de buscar formas de explicar-se e explicar as diferenças. Definir a noção identitária passa a ser necessariamente buscar a resposta para duas perguntas básicas: quem sou eu? Quem é esse outro? Enquanto permaneceu a chamada sociedade tradicional, essas dúvidas restringiram-se às disparidades naturais: gênero, etnia, raça, conceitos que serviram para segregar e acentuar disparidades, agrupar os semelhantes e, muitas vezes, como instrumento de dominação. Lipovetsky, ao comparar os grupos simples com a era hipermoderna[6],afirma:

"[antes] a identidade religiosa e cultural era vivida como coisa natural, recebida e intangível, excluindo as escolhas individuais. Isso acabou. Na presente situação, a filiação identitária é tudo menos instantânea ou dada em definitivo; ela é, isto sim, um problema, uma reivindicação, um objeto de apropriação dos indivíduos. [...] Antes institucionalizada, a identidade cultural se tornou aberta e reflexiva, uma questão individual suscetível de ser retomada infinitamente"[7].

O indivíduo da sociedade tradicional (para usar termos durkheimianos) estava mais ligado a uma visão coletiva do mundo. Pertencer a um grupo era um fato, e não pertencer a outro não era um ponto a ser discutido. Essa idéia também é analisada por Giddens, que define a reflexividade[8] como um elemento marcante no mundo atual, em contraposição às épocas anteriores:

"[...] em tais culturas, nas quais as coisas permaneciam mais ou menos as mesmas no nível da coletividade, geração após geração a mudança de identidade era claramente indicada [...]. Nos ambientes da modernidade, por contraste, o eu alterado tem que ser explorado e construído como parte de um processo reflexivo de conectar mudança pessoal e social"[9].

A noção de indivíduo ganha relevo na modernidade e a discussão torna-se cada vez mais plurissignificativa. Especialmente no fim do século XVIII e, ao longo do século XIX, a identidade de classe responde às necessidades de definições na Europa. Na América, à margem desse processo, elas conviviam com realidades bem diferentes – escravismo, paternalismo, autoritarismo etc. e os índices identificadores se prendiam radicalmente à idéia de raça.

Depois do problema étnico que culminou com a Segunda Grande Guerra na Europa, o tema foi profundamente revisado. A partir do que se convencionou chamar de globalização, a noção tornou-se muito mais fragmentada e uma infinidade de opções para definir grupos e indivíduos indica que os critérios para entender o pertencimento, dialogam com escolhas subjetivas e transitórias. Nessa constante pulverização e afirmação da diferença, as identidades são consideradas unicamente como marca registrada de minorias.

Bauman, a partir da idéia de modernidadelíquida, ao se defrontar com a centralidade do “problema da identidade”, mostra a ocorrência de uma “crise de pertencimento” que caracteriza o atual momento histórico:

"Quando a identidade perde as âncoras sociais que a faziam parecer “natural”, predeterminada e inegociável, a “identificação” se torna cada vez mais importante para os indivíduos que buscam desesperadamente um “nós” a que possam pedir acesso"[10].

Mesmo que os conceitos sejam volúveis, o indivíduo continua inserindo-se em um grupo e classificando os demais. Embora Durkheim[11] não aborde sistematicamente o tema como um problema, suas reflexões apreendem as formas que o ser humano utiliza para organizar a realidade à sua volta. Quando explica, por exemplo, que a religião funciona como uma forma de classificação e ordenamento do mundo reporta-se às noções de eu e de outro. Em sua célebre análise do totemismo australiano, demonstra como os modos de especificação independem de particularidades étnicas ou geográficas. Dessa forma, as noções de gênero e de classe (categorias) foram as primeiras a serem utilizadas pelo pensador francês para evidenciar isso. Considerando que identificar é uma forma de ordenar as diferenças e as semelhanças entre indivíduos e grupos sociais, as argumentações dele sobre a influência da coletividade nos comportamentos individuais tocam o assunto – por via diferenciada.

Outro elemento que contribui para fortalecer o sentimento de pertencimento e, com ele, o reconhecimento entre indivíduos e grupos é a historicidade – legitimadora das tradições. Na medida em que elas são inventadas, agregam indivíduos isolados que antes não possuíam sentimentos comuns. Agrupados a partir do mesmo, o reconhecimento e os traços passam a ser compartilhados. Uma vez que a história de um grupo não pode ser especificamente descrita, como uma biografia isolada, a construção de um passado está alicerçada em um conjunto de componentes identitários que sustentam a unicidade.

Justamente nessa criação reside o que Benedict Anderson (1989) chamou de “comunidades imaginadas”. Assim, o identitário seria a “liga” que sustenta o que é comum entre os indivíduos. Nessa perspectiva, as idéias de Giddens, Anderson e Hobsbawm confluem na mesma direção. Todos afirmam, por vias distintas, que mesmo na atualidade, o tradicional cumpre um papel que é constantemente reinventado à luz do conhecimento: “a tradição justificada é tradição falsificada e recebe sua identidade apenas da reflexividade do moderno[12]”.

A esse respeito, Hobsbawm[13]destaca o fato de que muitas tradições aparentemente antigas são, na verdade “bastante recentes, quando não são inventadas”. O autor demonstra como, ao longo da história, particularmente no século XIX, alguns Estados nacionais criaram hábitos e práticas com o intuito de impingir em seus membros um conjunto de valores que assegurassem a coesão social e expressassem uma similaridade que estruturava as relações. Dessa forma, a “invenção” do tradicional funciona como instrumento de sobrevivência do próprio grupo e pode ser definida como:

"um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade com um passado histórico apropriado"[14].

Para sobreviver, o grupo precisa manter esse vínculo pregresso, pois nisso agrega-se a idéia de presente e de continuidade. O historiador também afirma que esse antecedente “não precisa ser remoto, perdido nas brumas do tempo”[15] porque a temporalidade da repetição e a apropriação das práticas são relativas.

No caso de Brasília, temos planos temporais distintos: a) o aparente, demarcado pela fundação em 1960; b) o histórico: transferência da Capital Federal, dentro de um longo processo unificador da terra denominada Brasil.

 

II. Brasil, Brasília: mosaico cultural, mosaico identitário

          O processo de constituição cultural na capital federal guarda muitas similaridades com o desenvolvimento das características nacionais brasileiras.

Assim, estudar a formação da identidade brasiliense significa discutir questões colocadas pela contemporaneidade. Exemplo disso é o fato de que no Brasil o processo de constituição identitária foi alvo de diversas reflexões do pensamento social, das práticas cotidianas e das manifestações artísticas e culturais. Para ilustrar, temos Brasília – uma “cidade inventada”, que sofre do mesmo complexo nacional: uma totalidade formada de uma conjunção sincrética ao longo do tempo. A nação, construída com habitantes daqui (índios), portugueses (e outros europeus) e africanos; a capital, implantada com pessoas de todos os recantos, atrai fluxos migratórios contínuos motivados pelas promessas de progresso (em sua fundação) e a possibilidade de cargos no funcionalismo público em constante renovação.

Por ser recente e projetada, isso se complica, pois a afirmação de que Brasília é um lugar que não possui identidade definida tem sua argumentação fundamentada na angústia do tempo – consideravelmente curto em relação a outros grandes centros. Isso advém da impressão de que as coisas antigas já estão prontas – como se elas também não estivessem em transformação e renovação. Essa visão, particular ao senso comum, ignora um conjunto de caracteres típicos e desconsidera que toda tradição foi, um dia, inventada.

A análise da formação identitária brasileira é um indício da maneira como esse processo ocorreu no País e é utilizado como paralelo para a observação da identidade brasiliense. Essa questão foi discutida desde o início da colonização, como atestam inúmeros Sermõesde Padre Antônio Vieira[16] (1608-1697). Foi objeto de reflexões durante o ciclo das Minas (séc. XVIII) e aflorou na Inconfidência Mineira[17] – a noção de inconfidência já preconiza uma distinção entre partes diferentes. Mas, a partir da Independência (1822), que coincide com o surgimento do movimento romântico[18] na literatura brasileira, tanto na política, quanto na arte, a busca pela distinção dos traços entre brasileiros e portugueses, entre América e Europa, torna-se imprescindível na constituição da brasilidade. Até o século XIX a colônia viveu em torno das atividades econômicas para a metrópole, mas a partir da transferência da família real, se formou uma vida cultural[19] que atendia às necessidades da corte portuguesa no País e que, por extensão, tornava-se brasileira:

"A passagem da época colonial para os primeiros anos de vida independente acarreta mudanças pouco significativas na vida intelectual, até então rudimentar, em decorrência da debilidade da sociedade civil, da vida política, do sistema educacional. A alteração mais importante se deve às necessidades políticas de criação do novo Estado, surgindo daí algumas instituições de ensino superior, principalmente o jurídico, e um mercado cultural, onde se publicam jornais, editam-se livros, montam-se peças de teatro"[20].

A instalação da família real (1808), a Independência (1822) e a República (1889), impulsionaram a busca dos elementos que constituíam a nação. Autores como Gonçalves Dias, José de Alencar, Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Sílvio Romero, dentre outros, preocupavam-se em explicar os traços e instintos nacionais. Geralmente confrontando o atraso daqui, com o progresso de lá, buscavam formas de transformar a sociedade e de inseri-la na ordem ocidental: “as condições geográficas, econômicas, políticas e sociais já se manifestam nas primeiras imagens do País, iniciando, ainda que de maneira embrionária, a longa tradição que se formaria de construir a identidade nacional”[21].

Na primeira metade do século XX, isso se intensificou e culminou com o movimentomodernista que representou um marco nas artes. A cultura brasileira foi definida justamente pelo caráter sincrético de seu povo. Por sermos “sem nenhum caráter” e “antropófagos”, nos dizeres de Mário e Oswald, aí residia nossa peculiaridade. Na política, além do Tenentismo, a Revolução de 30 avançou em direção à modernidade ao romper com o domínio agrário dos fazendeiros cafeicultores. Com o fim da Primeira República, anunciava-se a entrada na era industrial. Finalmente, poderia definir-se perante o outro, aparentemente, a partir de parâmetros equivalentes. Nas Ciências Sociais, a pergunta sobre o caráter nacional destacou-se nas obras dos retratistas: Paulo Prado, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Junior, dentre outros. Preocupados em compreender o processo de formação e transformação da cultura, os valores da nação em constantes mudanças, a diversidade étnica e racial, ofereciam variadas explicações – melancolia, atraso econômico, mestiçagem, democracia racial – e assim contribuíam para criar/identificar imagens de uma tradição que se ligava ao contexto da época.

Esses movimentos intelectuais coincidiram com um projeto político de avanço da nação. Porém, como afirma Ianni[22], “os prenúncios do Brasil moderno esbarravam em pesadas heranças de escravismo, autoritarismo, coronelismo, clientelismo”. Às voltas com as contradições, o projeto de inserção nessa ordem logrou, antes de tudo, colocar no centro dos debates, possíveis imperfeições e reinterpretá-las. Modernizar-se significava compreender que:

"Na nossa cultura há uma ambigüidade fundamental: a de sermos um povo latino, de herança cultural européia, mas etnicamente mestiço, situado no trópico, influenciado por culturas primitivas, ameríndias e africanas. Esta ambigüidade deu sempre às afirmações particularistas um tom de constrangimento, que geralmente se resolvia pela idealização. [...] O modernismo rompe com este estado de coisas. As nossas deficiências, supostas ou reais, são reinterpretadas como superioridades"[23].

Buscava-se a chave para explicar essas ambigüidades com algo capaz de unificar diferenças e desigualdades. Ao criar uma identidade nacional a partir da mistura, a segregação seria suplantada e, ao equiparar as diferenças, ela aproximaria os indivíduos por meio das características comuns.

Nesse contexto, marcado por mudanças e incertezas, o Brasil ainda se via às voltas com a disparidade entre o retrato modernizador que pretendia mostrar – o que deve ser – e o que era revelado pelos retratistas – o que é. Estavam dadas as condições para o nascimento da nova capital do País: a cidade de Brasília e o progresso que ela simbolizava. Assim, a preocupação com os elementos nacionais culmina com a promessa de uma nova realidade erguida à imagem e semelhança do modelo sonhado. Muito embora a “Idéia de Brasil Moderno” não tenha se concretizado nas práticas sociais e nas relações de poder, o processo de industrialização continuava impulsionado por projetos políticos. O período de 1930 a 1945 – a Era Vargas – ficou conhecido pelo populismo e por uma política centralizadora e nacionalista. Ao longo de dois mandatos, investiu fortemente na criação de um parque industrial e em obras de infra-estrutura e marcou decisivamente as relações de trabalho com medidas que beneficiariam os trabalhadores. A modernidade continuava como divisa, discurso e meta. A chegada de Juscelino Kubitschek à presidência marcou um período otimista, simbolizado pela política desenvolvimentista focada no progresso econômico e em incentivos industriais. Dentre as medidas implementadas, a construção e a transferência da capital para o Planalto Central significava a meta-síntese do plano de governo. Como afirma Ianni:

"Tanto no nível do pensamento como no das práticas de governantes e grupos sociais mais poderosos, observa-se impaciência, pressa, sofreguidão. Algumas realizações famosas dão uma idéia desse clima. A construção da cidade de Brasília pretende simbolizar o Brasil Moderno, representa o coroamento de uma larga história de intentos de tornar o Brasil contemporâneo do seu tempo. Uma capital nova, feita sob medida, lançada em traços audaciosos, nas proporções do século XXI – e povoada pela mesma humanidade que se pretendia esquecer ou exorcizar"[24].

Além de audacioso, o projeto da construção de Brasília era o próprio símbolo da modernização. Congregava também as expectativas de expansão do interior e a desejada integração. Era como se um novo Brasil estivesse prestes a nascer no coração do País. Com ele, nasceriam também outra gente e uma nova sociedade em que as desigualdades seriam superadas por meio de um projeto urbanístico democrático. No entanto, o novo misturou-se às raízes e a capital do futuro tornou-se algo inesperado, imprevisível, movente. De tão mítica, não concretizou o sonho, e se tornou estranha para boa parte da população.

Segundo Teixeira[25], muitos clichês são utilizados para referir-se a Brasília, o que demonstra o imaginário brasileiro sobre ela, tais como, a metáfora da “ilha da fantasia”, ou da falta de identidade. As contradições inerentes às essas imagens construídas, são apontadas por Ribeiro:

"[...] desigualdade e não igualdade, fraturas sociais e não homogeneidade, extremas diferenças e não similitudes demarcam a cidade que se oferece como espelho do país. A Brasília “ilha da fantasia”, metáfora que sintetiza a alienação e a mistificação que acompanham o exercício do poder central, comporta incômodas similitudes com o decadente Rio"[26].

Além dos estereótipos, a afirmação de que a jovem capital ainda não possui identidade também é recorrente. Enquanto a primeira idéia remete à vida política local (como se todos os seus habitantes vivessem da/para a política), a segunda diz respeito ao sincretismo cultural e social que leva as pessoas a acreditarem que, pelo fato de haver tantas misturas, o lugar não apresente nenhum traço predominante.

Esse fenômeno pode ser percebido nos discursos dos habitantes de outras regiões ao se referirem à Capital: o espaço urbano denominado Distrito Federal restringe-se (no imaginário) à área do Congresso Nacional. E mesmo que esse fenômeno possa ocorrer em outros lugares, devido à dimensão continental do País, aqui mesmo há muitos problemas para definir exatamente o que é Brasília e o que é Distrito Federal. A população que vive fora do Plano Piloto, por exemplo, se auto-define como brasiliense. Nos meios de comunicação, em índices econômicos e até mesmo nas placas de acesso – Goiás/DF; DF/Brasília; Brasília/Cidades-Satélites – essa confusão ocorre constantemente.

Considerando que vários estudos, mesmo com outros enfoques, remetam à questão da identidade brasiliense – ou da falta dela – é possível perceber um movimento recente de descoberta ou de busca pelas suas características. Isso pode ser aferido nos meios de comunicação regionais que auto-justificam as informações como coisas daqui; a cultura popular sincrética de pessoas que vieram de outros lugares e que elegeram Brasília como suacidade; e, principalmente, pelas gerações nascidas e enraizadas que começam a constituir uma genealogia e memória brasiliense.

Isso converge para a seguinte pergunta: se os candangos[27] são as pessoas que vieram para a construção do Plano Piloto, quem são os brasilienses? A investigação da existência dos traços culturais, nesse conjunto de exemplos, já é perceptível em reflexões como a de Nunes:

"Referenciais [simbólicos] ofereceriam suporte tanto para a identidade individual como para a identificação social do indivíduo, de tal forma que estudar o fenômeno da estratificação do espaço social de Brasília passaria, num primeiro momento, pelo estudo ou decodificação dos mecanismos de construção dos aspectos exteriores de identificação que seriam específicos à cidade. A vida social que se instaura é organizada por meio de vínculos que, embora recentes no tempo e no lugar – e portanto, aparentemente frágeis –, vão construindo formas de vida que irão, pouco a pouco, traduzindo-se na forma de ser “brasiliense” ou “candanga” [grifos nossos]".[28

Essa forma de ser, típica dos moradores da capital federal, tem sua gênese em episódios como o narrado por Luz, citado por Teixeira[29]: um garotinho nascido em Brasília, filho de pais cariocas que vieram trabalhar no planalto central, ao ser confrontado com a possibilidade de ter de voltar para o Rio de Janeiro, considera a idéia absurda, pois sua cidade era onde nascera. Portanto ele não voltaria, mas deixaria a sua terra. Diante desse episódio ilustrativo é possível questionar se esse sentimento de pertença não teria se estendido às gerações subseqüentes originando um modo de ser e de viver típico do povo brasiliense.

 

III. Considerações finais: Brasil, Brasília: tão longe, tão perto...

          A tarefa de buscar essas características identitárias requer uma análise detida das peculiaridades locais: uma cidade jovem; projetada urbanística e arquitetonicamente; planejada para ser a capital do Brasil, em uma região de baixa densidade demográfica, que atraiu e continua atraindo correntes migratórias. Centro do poder e das decisões nacionais, cuja economia gira em torno do serviço público; possui custo de vida e as médias salariais altos – que se contrapõem à realidade das cidades satélites e do entorno. Traz em si as mais notáveis contradições sociais brasileiras e combina traços de grandes metrópoles – o individualismo – com características de pequenas cidades – segurança pública razoável, se comparada com grandes centros urbanos; mas problemática nas cidades-satélites. Brasília é o exemplo vivo e urbanístico do que Berman[30] chamou de modernidade: “ser moderno é viver uma vida de paradoxo e contradição [...] é ser ao mesmo tempo revolucionário e conservador”.

Dentre as singularidades, uma delas merece atenção especial: as manifestações identitárias florescendo na cultura popular. Algumas, menos organizadas, outras, extremamente conscientes, todas, com o objetivo de “criar um identificador cultural em Brasília”. Como exemplo, pode-se citar o caso de manifestações populares autoconscientes em grupos artísticos: Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, Mambembrincantes, Batucatá, Boi do Seu Teodoro, Feijão de Bandido, dentre outros[31]. A maioria possui a mistura de ritmos musicais, danças e gêneros artísticos como traço diferenciador e pretendem representar a cultura típica da Capital Federal para a nação e para o mundo. Para tal, utilizam mitos e lendas (re)criados, ritmos e movimentos misturados, a partir de figuras que simbolizam o cerrado, a construção da cidade e as correntes migratórias, em uma clara atitude de “invenção da tradição”.

De forma menos consciente, a partir de uma observação ainda em processo, algumas práticas e ações podem ser caracterizadas como elementos identitários de Brasília: o churrasquinho no fim do dia que permite uma considerável aglomeração de pessoas nas (áreas) comerciais das quadras; a criação e o passeio compulsivos com cachorros nas entrequadras; as vias, ao invés de ruas; as siglas, invés de nomes; um sotaque peculiar já em estudo por lingüistas; a memória de uma Capital do Rock (anos 80); a formação de uma Capital do Choro (na atualidade); a presença enorme de Parques e de Natureza (cerrado); a visita à Esplanada (por moradores das cidades-satélites e por um turismo cívico crescente); e a freqüente ida a bares tradicionais: pontos típicos de vários grupos sociais e lugar quase obrigatório para levar visitantes.

A esse respeito é interessante ainda observar: Brasília foi precocemente tombada pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Esse fato indica que há no mínimo um paradoxo entre a visão e os discursos criados em torno da cidade. Como foi possível tombá-la sem que ela possuísse uma identidade na história? Em se tratando desse vínculo com o passado e projeção para o futuro, a análise deve ser cautelosa, pois como afirma Lipovetsky, ela se configura cada vez mais como uma marca da contemporaneidade:

"O retorno prestigioso do passado extrapola em muito o culto ao retrô, às comemorações e ao patrimônio histórico. Ele se concretiza com ainda mais intensidade no despertar [...] das novas solicitações identitárias. [...] as sociedades contemporâneas assistem a um fortalecimento de referenciais que remetem ao passado, de uma necessidade de continuidade entre passado e presente, da preocupação de dotar-se de raízes e memória"[32].

Note-se que, além de legitimar a identidade, a (re)descoberta do passado, evidencia a necessidade humana de fazer parte de uma coletividade e construir referenciais diante do relativismo e da fluidez típicos do presente. Talvez seja essa necessidade que oriente a confecção de uma imagem a ser adotada como retrato brasiliense. O fato de comportar diversas manifestações de diferentes lugares: choro, samba, tambores, bumba-meu-boi, danças variadas, entre outras manifestações; artistas de vários gêneros e lugares, sugere que a capital possui a mistura nacional característica e que possivelmente a sua marca registrada possa surgir justamente dessa pluralidade.

Para Teixeira[33] é importante investigar as peculiaridades da capital, que vem se firmando como pólo irradiador bastante fértil “para a produção e maturação de talentos” artísticos em diversas áreas “quando comparada a outros centros urbanos brasileiros maiores.” Indubitavelmente essas singularidades estão entre as características ainda a serem analisadas. Em meio a particularidades e similitudes entre brasilienses e brasileiros, é interessante ainda citar as observações de Nunes e Costasegundo os quais a:

"[...] enorme disparidade socioeconômica que se produziu no Distrito Federal à semelhança do restante da sociedade brasileira [...] é um excelente indicador do fato de que o Distrito Federal pode ser considerado, em algumas de suas características, um microcosmo do país e de sua sociedade. Em outras palavras, tem-se indícios claros de que, longe da idéia de “ilha da fantasia”, o Distrito Federal reproduz com requintes particulares, toda a complexidade social verificada em outras cidades brasileiras"[34].

Essas palavras coadunam com a hipótese de nosso trabalho de que a formação cultural de Brasília guarda estreitas relações com o processo de formação identitária que ocorreu no Brasil. Passados 48 anos de sua fundação, se tomada em seu todo (Plano Piloto e cidades satélites), ela apresenta uma das características mais marcantes da sociedade brasileira: a desigualdade social.

Por outro lado, quando a análise se restringe apenas ao Plano Piloto, a situação é diferente, pois segundo os mesmos autores trata-se de:

[...] áreas com refinado controle de ocupação e com estratégias planejadas de expansão, alto padrão das habitações unifamiliares, os códigos urbanísticos que priorizam a característica de “cidade jardim”, a excelente infra-estrutura formam um conjunto de condições que terminam por se agregar à representação simbólica da nova capital. Sem falsas ironias, pode-se considerar que está nessa área o sonho de espaço urbano civilizado, cosmopolita, quase um boulevard europeu, clichê imaginado pelos idealizadores do projeto vencedor[35].

Embora não definitivas, algumas conclusões são possíveis a essa altura deste estudo serão destacados dois deles: a diversidade e a desigualdade social. Brasília parece ter se firmado definitivamente como pólo atrativo de migrações. O que pode ter desdobramentos catastróficos em termos de condições de vida da população que chega (educação, trabalho, habitação). Por outro lado, como conseqüência do mesmo fenômeno, a pluralidade cultural é visivelmente uma marca da vida na cidade. A sensação de “não-identidade” explica-se muito mais pela presença de vários traços do que pela sua ausência. Em segundo lugar, o “abismo social” que separa as camadas economicamente mais e menos favorecidas é uma característica brasileira marcante, mas em Brasília ela é levada ao extremo[36]. Na capital federal não há, por enquanto, a menor possibilidade de esses estratos conviverem. Não há espaço para miseráveis, analfabetos, excluídos. Índices como o IDH[37] mais alto do País no Plano Piloto são provas irrefutáveis deste fato.

Para finalizar, o que se deseja colocar aqui, mais do que a afirmação sobre a existência ou não de uma identidade brasiliense, é que de fato existem características que distinguem os habitantes de Brasília e fazem com que eles se reconheçam como tais. As pessoas nascidas no local não possuem dúvidas sobre sua identificação com a cidade. Mas o mais curioso é que aqueles que vieram de outros lugares também a escolheram como sua e não admitem a possibilidade de deixá-la. Talvez essa ilustre desconhecida, essa terra de ninguém se transforme em terra de todos os brasileiros.

 

Notas de pie de pagina

[1] LISPECTOR, Clarice, Para não esquecer, Rio de Janeiro, Rocco, 1999, p. 48. [Primeira publicação em 1978]

[2] RODRIGUES, Augusto. Niemar. Goiânia, GEV, 2008, p. 75.

[3] ORTIZ, Renato, Cultura brasileira e identidade nacional, São Paulo, Brasiliense, 1994. p. 7.

[4] CASTELLS, Manuel, A sociedade em rede: a era da informação – economia, sociedade e cultura, vol. 1, São Paulo, Paz e Terra, 2000, p. 39.

[5] BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas, A Construção Social da Realidade, Petrópolis, Vozes, 1978, p. 229.

[6] Hipermodernidade é um conceito que designa a exacerbação de valores que caracteriza a atualidade. O termo hiper, utilizado como prefixo em expressões como hipermercado, hiperindivíduo, hiperconsumo, demonstra como a cultura contemporânea é marcada pelo excesso (Lipovetsky, 2004).

[7]LIPOVETSKY, Gilles; CHARLES, Sébastien, Os tempos hipermodernos, São Paulo, Barcarolla, 2004, p. 94-95.

[8] A reflexividade é um dos conceitos centrais sobre a caracterização do que o autor inglês chamou de “Conseqüências da Modernidade”. Diz respeito ao modo como as práticas sociais são revistas e reelaboradas constantemente em virtude do grande fluxo de informações a que os sujeitos sociais estão expostos. A idéia de reflexo demonstra como a informação reflete e é refletida pela atualidade (GIDDENS, 1991).

[9] GIDDENS, Anthony,Modernidade e Identidade, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2002, p. 37.

[10] BAUMAN, Zygmunt, Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005, p. 30.

[11]DURKHEIM, Émile, As formas elementares da vida religiosa, São Paulo, Martins Fontes, 2000, p. 141.

[12]GIDDENS, Anthony, As conseqüências da Modernidade, São Paulo, Ed. UNESP, 1991, p. 44-45.

[13]HOBSBAWM, Eric; “Introdução: A Invenção das Tradições” in HOBSBAWM, Eric RANGER, Terence. (Orgs.), A invenção das tradições, São Paulo, Paz e Terra, 2006, p. 9.

[14]Id.

[15]Ibid., p. 10.

[16] VIEIRA, Padre Antônio. Obras Completas, Porto, Lello e Irmão Editores, 1983.

[17] Também chamada “Conjuração Mineira”, a Inconfidência foi uma tentativa de revolta ocorrida em 1789 em Minas Gerais (Brasil) contra a exploração e o domínio português. O principal representante foi Joaquim José da Silva Xavier, o “Tiradentes”.

[18] Movimento artístico e filosófico surgido na Europa no final do século XVIII que teve grande repercussão sobretudo nas artes e na literatura no Brasil.

[19]Evidentemente refere-se ao que é comumente chamado de cultura erudita. Certamente o Brasil já possuía vida cultural desde muito antes da chegada dos europeus no século XVI. Até o século XIX, os diversos povos nativos (indígenas), os africanos trazidos para trabalhar, além dos portugueses, já haviam criado práticas diversificadas – elitistas ou populares.

[20]COUTINHO, 1990, p. 19 apud, MOREIRA, Roberto S. C. Identidade e Pensamento Social no Brasil, 1993, 305 f. Tese (Doutorado em Sociologia) Departamento de Sociologia, Universidade de Brasília. Brasília, 1993 mimeo, 1993, p. 26.

[21]MOREIRA, R. S. C. (1993), op. cit. p. 29.

[22]IANNI, Octávio, A Idéia de Brasil Moderno, São Paulo, Brasiliense, 1996, p. 33.

[23]CANDIDO, Antonio, “Literatura e cultura de 1900 a 1945 (panorama para estrangeiros)”, in CANDIDO, Antonio, Literatura e Sociedade, Rio de Janeiro, Ouro sobre Azul, 2006, p. 127.

[24]IANNI, O, (1996), op. cit., p. 36.

[25] TEIXEIRA, João Gabriel Lima Cruz, “Transculturalismo e processos identitários: a experiência de Brasília”, Tomo – Revista do Núcleo de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais da Universidade Federal de Sergipe. n. 9, 2006, pp. 9-29 , p. 14.

[26]RIBEIRO, Ana Clara Torres, “Brasília, cidade plena”, in NUNES, Brasilmar Ferreira, Brasília: a fantasia corporificada, Brasília, Paralelo 15, 2004, p. 9.

[27]Termo criado para designar os operários que trabalharam na construção da cidade, em sua maioria, migrados da região Nordeste do País.

[28]NUNES, Brasilmar Ferreira, Brasília: a fantasia corporificada, Brasília, Paralelo 15, 2004, p. 83-84.

[29]TEIXEIRA, J. G. L. C., (2006), op. cit. p. 25-26.

[30]BERMAN, Marshal, Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade, São Paulo, Cia das Letras, 1986, p. 13.

[31]Grupos voltados para a criação de músicas e manifestações populares locais.

[32]LIPOVETSKY, G.; CHARLES, S., (2004), op. cit. p. 92.

[33]TEIXEIRA, J. G. L. C., (2006), op. cit. p. 9-10.

[34]NUNES, Brasilmar Ferreira; COSTA, Arthur, Distrito Federal e Brasília: dinâmica urbana, violência e heterogeneidade social, in Cadernos Metrópole (PUC-SP), v. 17, 2007, semestral, p. 41.

[35]NUNES, B. F.; COSTA, A., (2007), op. cit. p. 42.

[36]“Brasília é a cidade mais desigual do País”; segundo pesquisa elaborada para o jornal Correio Braziliense pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), cruzando dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) com os da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), tem-se: 10% da população da capital federal concentra quase metade da renda que circula na cidade. Mas os 50% mais pobres ficam com apenas 11% dos rendimentos pagos. A disparidade é maior que a registrada na média do país, onde os 10% mais ricos recebem cerca de 40% da renda total e a metade mais pobre da população absorve 15%.

 

[37] Segundo dados do site oficial do Governo do distrito Federal “Desde 1991, o Distrito Federal é líder em qualidade de vida entre as 27 unidades da Federação, segundo o índice de Desenvolvimento Humano medido pela ONU. Em uma escala que vai de 0 a 1, o IDH do DF passou de 0, 799 em 1991 para 0, 849 em 2003, bem acima da média brasileira, que é de 0,766. O cálculo do IDH é feito em três variáveis: renda, longevidade e educação. O campeão de IDH, entre os países, é a Noruega, com índice de 0, 942, seguido da Suécia, com 0, 941. O índice na Região Administrativa de Brasília, onde está instalado o chamado Plano Piloto, chega perto dos melhores do mundo, com a marca de 0, 936.” Disponível em:

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Para citar este artigo:
 
CABRAL DE ARRUDA Patricia, Brasília: marcas identitárias sobre a cidade, marcas urbanas sobre a identidade, RITA, n°1, 2008. Disponible en ligne http://www.revue-rita.com/content/view/24/52/